O homem que matou o facínora foi um filme dirigido por John Ford, lançado em 1962. O filme foi indicado ao Oscar apenas na categoria de figurino, e não ganhou o prêmio. Foi um dos últimos filmes do diretor, e apesar de na época não ter obtido tanto sucesso, ficou marcado como um dos melhores westerns de Ford (na humilde opinião de quem vos escreve, é sem dúvida o melhor).
O filme começa bem já nos créditos: James Stewart e John Wayne são as duas principais estrelas do filme (os dois também atuaram juntos no excelente The Shootist, e em How The West Was Won). John Wayne atua como Tom Doniphon, um cowboy típico, com o seu ten gallon hat e velocidade no gatilho, e James Stewart como Ransom Stoddard, um advogado recém formado vindo do Leste, com elegância e ideais em excesso para viver no Oeste. Em resumo, os dois estão atuando no tipo de personagem que cada um mais dominou nas suas respectivas carreiras, e a escolha de Ford do seu elenco foi perfeita. A sintonia dos atores com os personagens pode ser demonstrada pela origem do famoso "Pilgrim!" que Tom Doniphon usa para se referir a Ransom, e que ficou marcada como a frase clássica de John Wayne.
A escolha por fazer o filme em preto e branco ajudou a disfarçar as idades dos atores (Wayne 54 e Stewart 53), cujos personagens são muito mais novos. O disfarce foi muito bem realizado - compare John Wayne em Red River, feito 14 anos antes, e encontre um Duke que parece mais velho em 1948 do que em 1962. O filme conta também com Lee Van Cleef, o eterno vilão do western, como um dos capangas de Liberty Valance.
A história do filme gira em torno de Ransom Stoddard, senador da República, que volta para a pequena cidade de Shinbone para o funeral de Tom Doniphon, e disposto a contar a história de heroísmo de seu amigo que acabou morrendo desconhecido. Por trás deste simples conto, está uma crônica sobre o fim do Oeste, e uma reflexão sobre a validade da suposição de superioridade da civilização sobre a vida anárquica da fronteira. Adiante, um pequeno review sobre o filme, mas atenção, muitos SPOILERS. Assista o filme antes (vale a pena).
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| Watch out for spoilers, Pilgrim! |
SPOILERS
O filme começa com a chegada da locomotiva à cidade de Shinbone (a locomotiva, como já escrevi nesse blog, representa o progresso que atropela o velho Oeste) trazendo os envelhecidos Ransom e sua esposa Hallie de volta a velha cidade. Hallie, junto a Link Appleyard, o antigo xerife da cidade, contempla de forma triste como a pequena cidade onde morava antes de mudar-se para Washington havia crescido e mudado ("Well, the railroad done that. The desert is still the same." responde o velho xerife). Os dois vão até a casa que pertencia a Tom Doniphon, onde florescem as rosas de cactos, que são uma alegoria central do filme - voltaremos a ela até o fim do texto.
Os dois reencontram Ransom e vão ao funeral de Tom. Os jornalistas da Shinbone Star estão atrás deles, querendo saber o que levaria um senador da república a ir até Shinbone apenas para o funeral de um desconhecido. Ransom decide então contar a eles a real história sobre o homem que matou Liberty Valance, começando pela sua mudança para o Oeste depois de terminar o estudo do direito no Leste. A diligência que trazia o jovem Ransom é assaltada por Liberty. Ransom, ao tentar proteger a viúva que viajava com ele, anuncia sua profissão de homem da lei e promete colocar o bandido na cadeia. Em resposta, Liberty Valance rasga seus livros de estudo e aplica-lhe uma surra de chicote, avisando: "Well, I'll teach you law. Western Law." Esse é o primeiro confronto do filme entre a realidade do Leste e a do Oeste, entre a civilização, representada por Ransom, e a fronteira, por Liberty. Este é o duelo que pauta toda a história.
Ransom é salvo por Tom Doniphon, e levado aos cuidados de Hallie. Ransom, mesmo estando muito ferido, deseja ir atrás de Liberty Valance, o que leva Tom a lhe sugerir carregar uma arma na cintura. Mas Ransom quer ir atrás do bandido no "Eastern Way", através da Lei, levá-lo a julgamento e a prisão. Mas a Lei em Shinbone é representada pelo xerife Link, que nos revela que a cadeia possui apenas uma cela, cuja tranca está quebrada, e por isso o próprio xerife a usa como dormitório.
Ransom começa a trabalhar no restaurante de Hallie, onde mais uma vez vemos o contraste entre as duas culturas. Enquanto Hallie se espanta com a lentidão de Ransom para lavar os pratos, Ransom se surpreende com o analfabetismo de Hallie. Hallie, envergonhada, faz a pergunta retórica: para quê eu preciso saber ler e escrever? Uma das minhas passagens favoritas do filme que retrata a simplicidade das pessoas do Oeste é quando o jornalista Peabody, ao tentar ensinar Hallie a etiqueta que diz de qual lado do prato devem estar postos os talheres, recebe como resposta: "You superstitious or something?". Apesar do desdém inicial, Hallie pede a Ransom que a ensine como escrever e ler, e logo outros habitantes de Shinbone também estão aprendendo com o advogado (outra passagem interessante do filme, durante uma aula de Ransom, Pompey, o ajudante negro de Tom, confunde a Constituição com a Declaração de Independência, e falha em lembrar exatamente a passagem "That all men are created equal", o que é uma sutil crítica de Ford e os roteiristas ao estado de desigualdade racial americano. "I knew that, Mr. Ramse, but I just plum forgot it." se desculpa Pompey, no que Ransom responde "A lot of people forget that part of it") Esta é a representação da transformação da cultura simples do Oeste para a civilizada do Leste, que, tratada como superior, atrai os westerners mais humildes.
Outra frente de disputa entre o Leste e o Oeste está no triângulo amoroso formado por Tom, Hallie e Ransom. Vemos durante o filme Hallie aos poucos se afastando de Tom e se aproximando de Ransom. Na cena da cozinha do restaurante, Tom traz para Hallie uma rosa de cacto como presente, que representa a estética rústica particular do Oeste. Hallie mostra a rosa para Ransom e pergunta: "Isn't that the prettiest thing you ever did see?", mas o advogado responde: "Did you ever see a real rose?". A estética que representa o Oeste é vista como falsa, diante da beleza real das rosas verdadeiras que representam o Leste e a civilização.
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| Ransom Stoddard contra Liberty Valance: civilization x wilderness |
Durante o filme, o Leste vai aos poucos vencendo o Oeste em todas as frentes, na lei, na cultura, nas relações e mesmo na estética. Mas o Leste não consegue vencer esta batalha por si, como é mostrado na cena em que Liberty Valance humilha Ransom derrubando-o com o prato que ele serviria a Tom. A brutalidade do Oeste só pode ser enfrentada com a sua própria brutalidade. Quando Liberty Valance se une aos grandes fazendeiros, o próprio Ransom admite que será necessário o braço forte de Tom junto com as armas para enfrentá-lo. Isto é visto no momento em que ele apaga o quadro da classe, onde estava escrito "Education is the basis of the law and order". "When force threatens, talk is no good anymore", ele diz a Hallie.
Quem vai fazer este papel de herói no filme é Tom Doniphon, mesmo que isso signifique a sua própria queda (como vimos no início do filme, Tom termina como um desconhecido, enquanto Ransom torna-se um senador). Tom, como um bom herói do western, não está preocupado com o reconhecimento e ganho pessoal, mas em fazer o que o próprio acha certo, e de manter-se fiel a sua própria verdade, como vemos quando ele rejeita a nomeação para delegate feita por Ransom.
Depois de Liberty perder a eleição, ele massacra a sede do Shinbone Star e seu dono, Mr. Peabody, o que leva Ransom Stoddard a decidir enfrentar o bandido, mesmo com suas fracas habilidades com o revólver. Liberty Valance ganha no poker antes do duelo final com um ás e um oito, a dead man's hand, o que já anuncia o seu fim. Surpreendentemente, Ransom consegue atirar em Liberty, mesmo tendo que usar a mão esquerda. Ransom ganha a glória, o poder e a garota. Durante a convenção para a escolha do representante do território em Washington, Ransom, com base em seus princípios do Leste, deseja abandonar a política por não querer construir sua carreira em cima da morte de Liberty Valance, mas Tom vem lhe contar a verdade: foi ele quem atirou e salvou-lhe a vida. Com isso Tom perdeu Hallie para Ransom, mas apesar de irritado, ele exige que Ransom assuma a nomeação e traga o progresso para Shinbone e o Oeste: "You taught her how to read and write, now give her something to read and write about!". Tom Doniphon também reconhece o Leste e a civilização como superiores, apesar do próprio não conseguir se ajustar a esta nova realidade.
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| A flor de cacto sobre o caixão - o Oeste está morto, e não há o que comemorar |
Ransom ganha, torna-se governador, senador, mas o filme não tem um final feliz. O funeral de Tom é também um funeral do Oeste, e apesar de no início a civilização ter um apelo de superioridade, podemos ver em Ransom e principalmente em Hallie (além dos outros velhos habitantes de Shinbone) certo remorso por toda a mudança ocorrida. Ransom passa dinheiro através de um aperto de mão para Pompey ("Pork Chop Money"), sugerindo que o jovem cheio de ideais teve que fazer concessões à corrupção e ao jogo político em Washington para obter todo o sucesso conseguido - o último diálogo do filme também sugere isso, quando Ransom promete escrever uma carta elogiando o empregado que lhe traz mordomias. Ransom também se ressente por ter construído sua carreira sobre um feito que não foi realizado por ele, como vemos na sua reação quando o empregado lhe diz "Nothing is too good for the man who shot Liberty Valance". Ransom e Hallie trouxeram a civilização para o Oeste e se tornaram importantes em Washington, mas também não saíram vitoriosos na mudança, porque perderam a comunidade com a qual os dois se identificavam, que era o velho Oeste. Na locomotiva que volta a Washington, os dois planejam a volta para Shinbone, e a rosa de cacto deixada por Hallie sobre o caixão de Tom revela que o Leste e a civilização ganharam na realidade, mas o Oeste permaneceu naqueles que viveram nele.
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| A locomotiva - o moinho satânico do Oeste - abre e fecha o filme |





