Apesar disso, ainda considero o western o gênero mais importante do cinema, ao menos do cinema americano. A fórmula do "faroeste" foi copiada exaustivamente por gêneros modernos como ação e aventura. Por isso o gênero sofre do mesmo problema dos textos de Shakespeare - estão cheios de clichés. Muitas pessoas têm esta percepção do western, por exemplo, após ver filmes como Shane. Mas assim como os "clichés" das tragédias e comédias de Shakespeare são muito superiores às infinitas repetições feitas com o passar dos anos, o western pode ser mais profundo do que simples filmes de tiroteio (apesar de existirem também os filmes de bang-bang). O western é um equilíbrio perfeito entre um filme de ação do Stallone e um filme cult do cinema europeu.
| "Shane" - ou na brilhante tradução "Os brutos também amam" |
Me incomoda um pouco quando vejo que muitas pessoas com quem eu converso que gostam de cinema não têm interesse ou mesmo ignoram o western. Não dá para ser um cinéfilo completo sem entender este gênero. Alguns westerns precisam ser obrigatoriamente vistos, e vou tentar escrever aos poucos aqui nesse espaço as minhas impressões sobre alguns filmes. Neste texto introdutório, vou tentar destacar alguns elementos característicos do gênero, e que sabendo identificá-los, torna a apreciação dos filmes bem mais simples.
O American Film Institute classifica o western como o gênero de filmes cujo cenário é o oeste americano e que encarnam o espírito, a luta para domar e por fim o desaparecimento da nova fronteira. O tema essencial do gênero é a vida na fronteira, e é por isso que o western possui muita aplicabilidade. Inicialmente podemos pensar que na vida urbana civilizada os problemas do velho oeste são distantes e não relacionados. Entretanto, pelo contrário, no mundo contemporâneo competitivo estamos constantemente lutando contra fronteiras, apesar de não serem geográficas como enfrentaram os pioneiros. E por isso existe uma ponte entre os temas dos westerns e a vida real, que depende da visão do espectador. O objetivo não é entender a mensagem que o diretor quis passar, como em alguns filmes artísticos, mas sim interpretar individualmente os problemas e as soluções que surgem dentro do filme, o que torna os westerns mais divertidos. Os filmes não são metáforas, são aplicáveis.
No centro do problema da fronteira está o herói representado pelo cowboy, que é caracterizado especialmente por algumas características psicológicas. Pode-se destacar inicialmente a solidão (tenho a impressão que Michel de Montaigne também seria um aficionado em filmes de faroeste) e o desapego. O herói do western desafia a noção aristotélica de que o homem é um animal social e se apresenta como um herói estoico. O cowboy abraça quase literalmente a ideia de Epiteto de que na vida somos como viajantes em uma estalagem ou convidados em uma mesa estranha, comportando-se como um indivíduo desapegado a coisas materiais, incluindo outras pessoas. Mesmo quando em busca de dinheiro, o cowboy não está preocupado com a recompensa material em si, mas com a tarefa de caçador de recompensas com a qual se identifica - por exemplo, Blondie (aka Monco ou Joe) na trilogia dos dólares de Leone torna-se um milionário, mas permanece usando o mesmo poncho velho (que foi achado e não comprado).
A solidão do cowboy se manifesta de duas formas distintas: a objetiva, que significa estar sozinho, sem ninguém por perto, e a subjetiva, isto é, sentir-se sozinho. Esta distinção é interessante porque as duas não aparecem necessariamente juntas. Muitas vezes o cowboy não se sente sozinho mesmo estando só, na verdade o herói sente-se mais confortável em agir sozinho. Shane, no seu último duelo prefere nocautear Joe a deixá-lo participar do duelo final - que Shane entra para proteger seu próprio amigo nocauteado. Estar sozinho geralmente é uma escolha, mas pode ser uma imposição ao herói também. Em High Noon, após percorrer a cidade inteira pedindo ajuda, e escutar rejeições de apoio de todos a quem o delegado ajudou durante anos, Will Kane, representado perfeitamente por Gary Cooper, decide ir a luta sozinho contra o grupo de bandidos que voltou a cidade. Mesmo recebendo vários pedidos para que fuja da cidade e dos bandidos, Kane permanece irresoluto na sua missão, mesmo que a tenha que cumprir sozinho. Estar sozinho não é um empecilho para o cowboy.
Mesmo na sua condição de herói estoico, o cowboy em diversos momentos também se sente sozinho, estando ou não objetivamente sozinho, e alguns filmes tratam sobre este tema, como "High Noon", "The Shootist", "Unforgiven", e o recente Appaloosa. "The Searchers" também explora bastante este tema, sendo a sua clássica cena final um grande exemplo deste tipo de sentimento: vemos Ethan Edwards, ao fim de sua jornada, redimido porém solitário, enquadrado pelo batente da porta - o fato de Ethan não entrar na casa representa o seu distanciamento das outras pessoas.
| "The Searchers" - "Rastros de Ódio" em português |
A complicação de entender a solidão subjetiva do cowboy ocorre por outra característica central na construção da personagem, que é o silêncio. O herói não fala muito, e por isso muitas vezes não sabemos o que ele sente, pensa, nem mesmo o seu nome. Manter-se quieto pode representar a sobrevivência para o cowboy (como Tuco e Blondie mostram em The good, the bad and the ugly ao manterem suas partes do segredo). A ação do filme costuma construir-se na expectativa do próximo passo do protagonista, o que não teria nenhuma graça se ele não mantivesse a postura calada. Ele prefere agir a falar - nas palavras de Tuco, "When you have to shoot, shoot. Don't talk". Esta característica também exige muito do ator principal ser capaz de expressar uma série de sentimentos apenas pela linguagem corporal, e como o herói também se mantém quase sempre frio e inexpressivo, essa comunicação precisa ser transmitida em detalhes como o modo de olhar. John Wayne é um mestre nesta arte (a minha atuação favorita é como Thomas Dunson em "Red River"), e é por isso que ele tornou-se o símbolo do western e do cinema americano.
Este silêncio, que se traduz em poucos diálogos e som durante o filme, associado ao estilo da fotografia, as poucas cores que giram todas em torno de um semi-sépia, as cenas gravadas com câmera parada, a ausência de trilha sonora nos filmes mais antigos, tudo isto contribui para que iniciantes que estão acostumados com os filmes modernos cheios de efeitos, trilha sonora e muitos diálogos se entediem com os filmes de faroeste. Acostumando-se com o ritmo do filme, este tipo de percepção desaparece, e é possível aproveitar ao máximo a qualidade do gênero.
Apenas para encerrar este texto que deveria ser mais curto e apenas uma introdução, acredito que vale a pena destacar dois elementos que costumam aparecer nos westerns e que representam partes importantes nos roteiros destes filmes: a locomotiva e o ouro. O tema do confronto entre a civilização vinda do leste e o "wild west" aparece em muitos filmes, como em "The Man Who Shot Liberty Valance" e "The Big Country" (que tem uma tradução em português muito mais interessante: "Da terra nascem os homens"). Em outros filmes, a locomotiva representa a chegada do leste, mas uma chegada avassaladora, como um "moinho satânico", na expressão de Karl Polanyi, trazendo a mudança e triturando os homens e o Oeste no processo. Em "Once upon a time in the west" a chegada da ferrovia serve de pano de fundo para todo o roteiro do filme.
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| A ferrovia - o moinho satânico do oeste - em "Once upon a time in the west" |
Já o ouro representa a grande oportunidade da fronteira, e a escassez aliada a condição de bem público das minas faz aflorar nos pioneiros o máximo da sua já inerente competitividade e individualidade. Como o velho e experiente garimpeiro de "The Treasure of the Sierra Madre" Howard previne: "I know what gold does to men's souls". Este filme é um clássico na abordagem do efeito do ouro no comportamento dos cowboys, e a atuação de Humphrey Bogart supera até mesmo seu trabalho em Casablanca e em The Big Sleep.
| Agora você já pode aproveitar melhor o mito do velho Oeste |

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